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A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

24/06/18

Lenga

 Num sítio longe havia uma árvore. E à sua volta só névoa. Nenhuma flor se revelava, estando todas irremediavelmente esquecidas na confusão entre a beleza e a função.
 A névoa era silêncio e a árvore imaginou coisas nesse vazio. Então, o tempo começara a passar, e a imaginação era cada vez mais uma base sólida, e nasciam mais árvores precoces nesse meio.
 Contudo, cansou-se a imaginação e a árvore quis alimento, para se entreter uns instantes, havendo de voltar mais tarde ao abstrato. Só que a névoa estava irremediavelmente morta e parada no tempo. Onde procurarão, assim, comida as finas e frágeis raízes.
 Adormeceu, murchou, pensou, decidiu criar. Uma árvore mais forte que eu, lá em cima, para lá do que vejo. E nesse momento, choveu.
 A árvore agradeceu durante muito tempo. Passou só a imaginar e a agradecer. E, por vezes, chovia.
 Um dia, a névoa mudou de cor. Pelo tronco rugoso e antigo da árvore subiam ventos em lentas danças. Era a felicidade. (Mas será que a outra árvore lá em cima também vê toda esta felicidade. E se descer até aqui para a roubar.)
 Decidiu guardar tudo dentro de si: a felicidade, a imaginação e toda a chuva que lá coubesse. Lamentou-se pela eternidade fora e, mesmo sem flores, deu máscaras como frutos.

Afonso Castro

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