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A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

19/08/18

Cada Vez Me Escaparatam Mais Este Tipo de Coisas

 Comprei um livro, desses que se compram agora, que se vendem aliás, agora também suponho, e a páginas tantas perguntou-me se eu estava entretido, para além de que podia ir lá trocar ou pedir o dinheiro de volta, mas a minha preguiça sucumbiu-se para cima das suas palavras e fica bem deixado na mesa da sala, por exemplo, ao ir atender o telefone, ou ao ir ver quem tocou à campainha, ou até ao ouvir a água da massa a rosnar ebulicamente contra a tampa do tacho ou para cima do lume.
 Resultado, o verão e a editora e a livraria deram-no ao escaparate, eu dei-o ao meu verão e a tardes de estores quase para baixo e sestas, praia de vez em quando pontas dobradas pelo resto das tralhas na mochila. Depois, o inverno chegou de um outono que quase não se pronunciou, e já ouviste falar daquele livro que saiu, olha já mas não o acabei todo, a ver se agora quando tiver mais tempo o acabo. 

26/07/18

Fotografia #1

 (...) eu tinha dito, as nuvens vêm de Sintra, e a neblina move-se depressa ou apenas no seu ritmo, mas o ritmo de tudo em volta era lento, e as cores eram cinzento-azulado do céu, negro-estática-de-televisão do alcatrão a rua longa o calor o cheiro do verão a fermentar e a exalar das coisas ao final do domingo, o branco sujo das estátuas-crianças-anjos-pequenos-deuses-cupidos-e-bacos e dos santos rachados nos quintais das vivendas, os amarelos claros das paredes, o verde a murchar nas plantas, a cor das flores a deixarem as pétalas, mas tudo está vivo eu garanto-te, vasos partidos, cães castanhos ou malhados, longas mesas de pedra beiges a serem memória de almoços de família, churrasqueiras laranja-cor-de-tijolo, grandes bocas com o seu centro enegrecido por tudo o que já ardeu, mas tudo está vivo já te disse, e tudo isto reflectido nos capots talvez-brilhantes dos carros estacionados nas ruas em frente aos portões das casas, e a rua a descer como grande língua a varrer a cidade de brincar lá em baixo, e os campos de brincar lá em baixo, e as gruas de brincar a quererem ferir o horizonte mas a aglutinarem-se nele, e o leve rosa-alaranjado numa faixa fina entre o céu e a terra (ou os campos, os campos que sobram na cidade), e o verde escuro ferrugem dos portões de antigas oficinas de bairro, e letreiros e autocolantes só...

05/07/18

Miopia

a perder, porque tinha de perder,
seria o perto, o incómodo,
o agora, com a perda a ser
descanso, noite, um quarto
e amanhã, amanhã logo se vê

 

a querer, porque tinha de querer,
seria o longe, o que pode, ou não,
chegar
quem nunca vai morar aqui,
e uma doença feita de mar
para não entender mais nada
e ficar a meio
(pode ser?)

24/06/18

Lenga

 Num sítio longe havia uma árvore. E à sua volta só névoa. Nenhuma flor se revelava, estando todas irremediavelmente esquecidas na confusão entre a beleza e a função.
 A névoa era silêncio e a árvore imaginou coisas nesse vazio. Então, o tempo começara a passar, e a imaginação era cada vez mais uma base sólida, e nasciam mais árvores precoces nesse meio.
 Contudo, cansou-se a imaginação e a árvore quis alimento, para se entreter uns instantes, havendo de voltar mais tarde ao abstrato. Só que a névoa estava irremediavelmente morta e parada no tempo. Onde procurarão, assim, comida as finas e frágeis raízes.
 Adormeceu, murchou, pensou, decidiu criar. Uma árvore mais forte que eu, lá em cima, para lá do que vejo. E nesse momento, choveu.
 A árvore agradeceu durante muito tempo. Passou só a imaginar e a agradecer. E, por vezes, chovia.
 Um dia, a névoa mudou de cor. Pelo tronco rugoso e antigo da árvore subiam ventos em lentas danças. Era a felicidade. (Mas será que a outra árvore lá em cima também vê toda esta felicidade. E se descer até aqui para a roubar.)
 Decidiu guardar tudo dentro de si: a felicidade, a imaginação e toda a chuva que lá coubesse. Lamentou-se pela eternidade fora e, mesmo sem flores, deu máscaras como frutos.

Afonso Castro

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