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A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

30/08/18

Cadáver Esquisito

 A neblina move-se depressa, vejo a claridade do fim do dia abater-se sobre a cidade de brincar lá em baixo, sobre os carros de brincar nas avenidas extensas que caminham para fora da cidade, sobre as primeiras luzes de candeeiros de rua que falham estonteantemente até se acenderem por fim em sibilos elétricos que perduram pela madrugada fora, só interrompidos pelo ladrar de cães abandonados em bairros distantes daqui.
  (lembras-te quando vimos o primeiro final de tarde nesta casa, subimos esta rua íngreme que varre as restantes casas como uma língua pesada de alcatrão, e tu disseste é esta mesmo, e eu quis-me depressa naquela varanda, talvez enquanto tu estivesses lá dentro a tomar banho, e eu a fumar contra o fim de todos os dias que haveriam de explodir aqui, pensei em tratarmos da rotina como um filho, nesta casa que tu disseste é esta, sem dúvida, sem a veres por dentro, no alto da cidade, esconderíamo-nos em vigílias de um casal de jovens adultos)
 É estranho este sistema de quebras de algo cego que viaja em ritmos insondáveis. Falamos em ciclos, oito horas de trabalho, cinco dias úteis, vinte e quatro horas que parecem tão pouco, noites como o contrário dos dias, mas no silêncio entre as ações, na respiração estendida ao máximo, lenta em todos os seus pormenores e reentrâncias, há uma continuidade, uma única vibração que nos empresta o tempo necessário para que fermente e cresça completamente em nós o medo da finitude. Em tempos, chamei a isto o progresso da ferrugem. 
 Acho que, finalmente, sou a casa, depois deste tempo todo, e sou os móveis que sobraram, ou fui eu que ardi e completei espaços que antes eram palavras com objetos. O corpo começou a rejeitar memórias. E serei agora os sacos brancos de plástico murchos que carrego, um em cada mão, trouxe-te o jantar, vou pôr a mesa, os guardanapos em triângulo junto ao garfo, os copos com desenhos de laranjas ridículas e outras frutas distorcidas, os pratos lascados nas bordas, não me desfiz de nada, e espero dentro de uma espera onde está sempre escuro, e tenho medo de te servir, de me sentar, de ouvir a cadeira a arrastar pelos azulejos do chão da cozinha, e há o barulho do ponteiro dos segundos que povoa a tua falta. 
 Se te interessar, o que me atenua a pequenez quando o estômago me cai aos pés em enjoos incolores cheios de resignação e pequenas fúrias, (e ainda há quem fale do coração), é uma palavra, um monossílabo de onde comecei a puxar significados que me defendessem: nós. 
 O nós, eu e tu, foi diminuindo quando me apercebi de outro nós, eu e tantos outros, que se deitam no chão das cidades, e ouvem, só ouvem. E um exército de nós, os outros, cresceu, longe primeiro, depois marchava para perto, e comecei a falar com outras vozes. Era, e é, o meu cadáver esquisito. Tenho-me sido outros, quando me farto de ser só bocados, sendo na mesma só bocados. Sinto-me mais humano, mais ocidental, e depois vou à janela para saudar este nós, os outros, por aí fora, e os prédios constroem-se assim, as estradas prolongam-se assim, a cultura multiplica as suas bocas assim. Por isso, se me vires por aí, já serei vários, contudo não no sentido de me contradizer como o Whitman, mas sim para me justificar, para me esquecer, a memória coletiva a dizer-me é normal, o quê não sei, mas é normal.
 A mesa está posta, não me atrevo a dizer, e o jantar arrefece, a noite entra, no prédio em frente o gato laranja e gordo derrete contra o vidro, semicerra os olhos aos restos de sol, feixes fracos de luz, é a esta altura que costumo convencer-me de maneiras úteis de construir o futuro, já a partir de amanhã. 
 Não tenho fome. O corpo está feito deserto, arrefece quando os barulhos da cidade se começam a calar, quando o que havia para fazer se esgota. Sou só eu agora, mais quatro talheres, dois copos, dois guardanapos, dois pratos, a toalha de mesa foleira com nódoas esbatidas de café ou vinho, eu agora a ganhar coragem para ouvir a cadeira a arrastar e sentar-me, para me servir e para decidir o que perguntar à tua ausência sentada na cadeira em frente. 
 (está bom? era a última dose que tinham para levar, vá lá que fui a tempo)

Afonso Castro

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