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A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

26/07/18

Fotografia #1

 (...) eu tinha dito, as nuvens vêm de Sintra, e a neblina move-se depressa ou apenas no seu ritmo, mas o ritmo de tudo em volta era lento, e as cores eram cinzento-azulado do céu, negro-estática-de-televisão do alcatrão a rua longa o calor o cheiro do verão a fermentar e a exalar das coisas ao final do domingo, o branco sujo das estátuas-crianças-anjos-pequenos-deuses-cupidos-e-bacos e dos santos rachados nos quintais das vivendas, os amarelos claros das paredes, o verde a murchar nas plantas, a cor das flores a deixarem as pétalas, mas tudo está vivo eu garanto-te, vasos partidos, cães castanhos ou malhados, longas mesas de pedra beiges a serem memória de almoços de família, churrasqueiras laranja-cor-de-tijolo, grandes bocas com o seu centro enegrecido por tudo o que já ardeu, mas tudo está vivo já te disse, e tudo isto reflectido nos capots talvez-brilhantes dos carros estacionados nas ruas em frente aos portões das casas, e a rua a descer como grande língua a varrer a cidade de brincar lá em baixo, e os campos de brincar lá em baixo, e as gruas de brincar a quererem ferir o horizonte mas a aglutinarem-se nele, e o leve rosa-alaranjado numa faixa fina entre o céu e a terra (ou os campos, os campos que sobram na cidade), e o verde escuro ferrugem dos portões de antigas oficinas de bairro, e letreiros e autocolantes só...

Afonso Castro

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