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A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

16/10/18

Pesado

  Um símbolo talvez ocupe uma casa inteira, mas isso também duas pessoas, ainda que sozinhas, cada uma no seu próprio esquecimento a gerar mais e mais pessoas, por mais ridículo e contraditório que isto pareça. E então o tal elefante na sala é só uma barriga enorme de onde nascemos todos já ensinados, cheios de incómodo.  
 Podíamos cultivar sabedorias milenares e fazer dos nossos corpos templos de longevidade, mas nem as oito horas de sono obrigatórias sabemos ter por perto: enquanto um dorme, o outro, insone, destrói mais um bocadinho de si com o que foi sendo dito. Ficou tão pesado este silêncio. Noite dentro de noite dentro de noite, amanhã..., já sabemos, já foi feito, já foi dito. Era nessas alturas que geralmente me punha a contar as manhãs que ainda tinha, as manhãs verdadeiras para mim, em que rebentos verdes-esperança estavam lá bem plantados, sóbrios, cegos e certos, o pequeno-almoço tardio era uma meditação sem preocupações do costume com o glúten e a lactose e os açúcares. Café e cigarros, com gente na mesma nas janelas em frente, o para sempre misturado com um talvez era um acordo tácito para irmos desvanecendo por aí, enormes e orgulhosos, como se isso fosse possível.
 Um bicho grande pode ser a imagem da sabedoria e da persistência, mas a sua sombra também escorre extensamente para lá do que era expectável. 

 Chego à conclusão que somos dois elefantes, tu o verdadeiro e eu a tua sombra. Ou vice-versa. 

 

Afonso Castro

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