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A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

30/10/18

I just felt okay

- You left New York for New Jersey,
you took your pills and you got up early,
you felt amazing, I just felt okay.

 
 Tornou-se óbvio que o espelho é um símbolo de mais uma pessoa, mas não como uma panóplia de possibilidades, só um reflexo amargo, só 
 - estamos aqui nós agora
um sucedâneo de verdade a afirmar-se realidade, a afirmar-se como certo, só
 - estamos aqui nós agora
e teima em voltar o dito e o não dito, sou eu, sou eu sem manual de instruções de ser só um, afinal somos dois ou mais, muitos mais, 
- e estamos aqui todos agora.


 Observo atentamente, resigno-me, dou murros, fujo, acredito que não, compro mais guerras civis, conformo-me, durmo mais, sonho menos, viro-me de costas e meto todos os outros eus na sombra, leio livros estranhos e colo versos e frases improváveis em cada uma das versões mal amanhadas que vêm aqui agora pedir justificações e alimento, eu pensava que éramos só dois, não somos, somos mais, fomos enchendo quartos alheios, fomos enchendo outros, fomos deixando por aí bocados de várias tentativas-erro, como sucata, como grandes máquinas para peças, pois é, afinal somos gigantes, e o problema do espelho é a imagem de colapso iminente, num sistema onde os ganhos rebentam contra nós como vagas agrestes de mar que sufocam, é tudo iminente, mas sobretudo a perda, a aterragem mal calculada, o escuro, os nós na boca e o silêncio, e claro... o colapso seguido dum típico fade out. 

Manhãs em branco, rotina imaculada e certa:
- Há um de nós que se aguenta, deixa lá, não faz mal.

21/10/18

Arraçado de Bartleby

Se eu fosse demasiado limpo
para ter horas,
não escrevia.
E antes de deixar de escrever,
já muita coisa deixava de ter interesse.
Porque eu não ia
para zonas antigas, suburbanas,
afiadas e fossilizadas de aborrecimento
a puxar olhares desconfiados
por eu, desde logo, estar a olhar demais,
eu a olhar e o olhar a transbordar nos outros.
É o que vos digo, se eu fosse demasiado
limpo para ter horas,
nem sequer era e, mesmo que fosse,
não me interessaria ser.

Se eu fosse demasiado - tudo:
limpo, absorto, conformado,
anulação, parado (não num bom sentido),
cinzento-vomitado, boca seca,
pequenamente morto
como depois das explosões,
desentendido... então, e agora?,
se eu fosse tudo isso, 
ou seja, se os problemas fossem magros
e raros, muito distantes,
e eu tivesse todo o tempo 
dentro de uma hora contínua,
eu não escrevia, isso garanto-vos.
Nem ia jantar fora, nem pensava 
nas viagens a fazer, nem me arrancavam
risos e palhaçadas, os livros e filmes
haveriam de saber todos ao mesmo,
as cores iam ser chatas 
e as pessoas iguais, tudo num fio da navalha
do civismo e do bom senso.

Entendes?

Agora, se me perguntares
se eu queria ser demasiado limpo
para ter horas...?
Claro.

16/10/18

Pesado

  Um símbolo talvez ocupe uma casa inteira, mas isso também duas pessoas, ainda que sozinhas, cada uma no seu próprio esquecimento a gerar mais e mais pessoas, por mais ridículo e contraditório que isto pareça. E então o tal elefante na sala é só uma barriga enorme de onde nascemos todos já ensinados, cheios de incómodo.  
 Podíamos cultivar sabedorias milenares e fazer dos nossos corpos templos de longevidade, mas nem as oito horas de sono obrigatórias sabemos ter por perto: enquanto um dorme, o outro, insone, destrói mais um bocadinho de si com o que foi sendo dito. Ficou tão pesado este silêncio. Noite dentro de noite dentro de noite, amanhã..., já sabemos, já foi feito, já foi dito. Era nessas alturas que geralmente me punha a contar as manhãs que ainda tinha, as manhãs verdadeiras para mim, em que rebentos verdes-esperança estavam lá bem plantados, sóbrios, cegos e certos, o pequeno-almoço tardio era uma meditação sem preocupações do costume com o glúten e a lactose e os açúcares. Café e cigarros, com gente na mesma nas janelas em frente, o para sempre misturado com um talvez era um acordo tácito para irmos desvanecendo por aí, enormes e orgulhosos, como se isso fosse possível.
 Um bicho grande pode ser a imagem da sabedoria e da persistência, mas a sua sombra também escorre extensamente para lá do que era expectável. 

 Chego à conclusão que somos dois elefantes, tu o verdadeiro e eu a tua sombra. Ou vice-versa. 

 

16/09/18

Impressed

impressionismo Diário
armas entre as pernas

 

abdicar?

 

Impressionismo diário
entre as pernas, armas

 

nucleares?

 

confinado a um pequeno espaço
agora não me vejas,
vá lá, por favor

 

cultua o culto
já cultuado antes
não!... estás a fazer mal!...
tens de fingir que não veio da terra
senão perdes a força

 

O Eu, O Tu,

As Explosões cá por dentro A Casa

O silêncio
e aborrecimento

 

um dia,
multiplicações extremas com um novo corpo
(velho para outros)
e onde é que tu já vais

 

impressionada?

02/09/18

Bocados, como se ninguém se calasse

existia porque eu estava lá
e eu tinha-a ou ela própria
era
distante, a fotografia
entornei-me
para me conseguir abeirar
dela
escrever era,
sempre foi,
ter as imagens cá por dentro
doentes

 

um dia destes,
hei de me perguntar
se lamento o desperdício
e a falta, perda, etc.
que fazemos e usamos
para dormir quase em paz

 

se não cessa a culpa,
teremos sempre pena de morrer

 

a cidade: budas foleiros de prateleira
+ os sítios em nós e nós nos sítios
bem guardados pelas leis
+ santos de cabeça partida
e cada um gasta as noites como quer

 

(há palavras que já usei demais,
outras são feias,
e certas vírgulas e espaços e ausências
e falatórios e leis e paragens
não se entendem)
há (ou tens) versos porquê?

30/08/18

Cadáver Esquisito

 A neblina move-se depressa, vejo a claridade do fim do dia abater-se sobre a cidade de brincar lá em baixo, sobre os carros de brincar nas avenidas extensas que caminham para fora da cidade, sobre as primeiras luzes de candeeiros de rua que falham estonteantemente até se acenderem por fim em sibilos elétricos que perduram pela madrugada fora, só interrompidos pelo ladrar de cães abandonados em bairros distantes daqui.
  (lembras-te quando vimos o primeiro final de tarde nesta casa, subimos esta rua íngreme que varre as restantes casas como uma língua pesada de alcatrão, e tu disseste é esta mesmo, e eu quis-me depressa naquela varanda, talvez enquanto tu estivesses lá dentro a tomar banho, e eu a fumar contra o fim de todos os dias que haveriam de explodir aqui, pensei em tratarmos da rotina como um filho, nesta casa que tu disseste é esta, sem dúvida, sem a veres por dentro, no alto da cidade, esconderíamo-nos em vigílias de um casal de jovens adultos)
 É estranho este sistema de quebras de algo cego que viaja em ritmos insondáveis. Falamos em ciclos, oito horas de trabalho, cinco dias úteis, vinte e quatro horas que parecem tão pouco, noites como o contrário dos dias, mas no silêncio entre as ações, na respiração estendida ao máximo, lenta em todos os seus pormenores e reentrâncias, há uma continuidade, uma única vibração que nos empresta o tempo necessário para que fermente e cresça completamente em nós o medo da finitude. Em tempos, chamei a isto o progresso da ferrugem. 
 Acho que, finalmente, sou a casa, depois deste tempo todo, e sou os móveis que sobraram, ou fui eu que ardi e completei espaços que antes eram palavras com objetos. O corpo começou a rejeitar memórias. E serei agora os sacos brancos de plástico murchos que carrego, um em cada mão, trouxe-te o jantar, vou pôr a mesa, os guardanapos em triângulo junto ao garfo, os copos com desenhos de laranjas ridículas e outras frutas distorcidas, os pratos lascados nas bordas, não me desfiz de nada, e espero dentro de uma espera onde está sempre escuro, e tenho medo de te servir, de me sentar, de ouvir a cadeira a arrastar pelos azulejos do chão da cozinha, e há o barulho do ponteiro dos segundos que povoa a tua falta. 
 Se te interessar, o que me atenua a pequenez quando o estômago me cai aos pés em enjoos incolores cheios de resignação e pequenas fúrias, (e ainda há quem fale do coração), é uma palavra, um monossílabo de onde comecei a puxar significados que me defendessem: nós. 
 O nós, eu e tu, foi diminuindo quando me apercebi de outro nós, eu e tantos outros, que se deitam no chão das cidades, e ouvem, só ouvem. E um exército de nós, os outros, cresceu, longe primeiro, depois marchava para perto, e comecei a falar com outras vozes. Era, e é, o meu cadáver esquisito. Tenho-me sido outros, quando me farto de ser só bocados, sendo na mesma só bocados. Sinto-me mais humano, mais ocidental, e depois vou à janela para saudar este nós, os outros, por aí fora, e os prédios constroem-se assim, as estradas prolongam-se assim, a cultura multiplica as suas bocas assim. Por isso, se me vires por aí, já serei vários, contudo não no sentido de me contradizer como o Whitman, mas sim para me justificar, para me esquecer, a memória coletiva a dizer-me é normal, o quê não sei, mas é normal.
 A mesa está posta, não me atrevo a dizer, e o jantar arrefece, a noite entra, no prédio em frente o gato laranja e gordo derrete contra o vidro, semicerra os olhos aos restos de sol, feixes fracos de luz, é a esta altura que costumo convencer-me de maneiras úteis de construir o futuro, já a partir de amanhã. 
 Não tenho fome. O corpo está feito deserto, arrefece quando os barulhos da cidade se começam a calar, quando o que havia para fazer se esgota. Sou só eu agora, mais quatro talheres, dois copos, dois guardanapos, dois pratos, a toalha de mesa foleira com nódoas esbatidas de café ou vinho, eu agora a ganhar coragem para ouvir a cadeira a arrastar e sentar-me, para me servir e para decidir o que perguntar à tua ausência sentada na cadeira em frente. 
 (está bom? era a última dose que tinham para levar, vá lá que fui a tempo)

26/08/18

Encontro Desarrumado

parece que andamos
a dar à boca uns dos outros
para além do medo próprio
(incrível, irrepetível, giratório)
as punchlines de poemas chatos
as mesmas imagens em t-shirts-peles
confundidas com as dores de cabeça do costume
as regras caladas, os cafés, o tédio
todos os encontros de bússola estragada
e as grandes decisões:
ficas hoje ou fico eu
em linha de espera
para gravitar em torno de outra pessoa
(mas com as mesmas palavras)

24/08/18

Ode Ao Que Tu Quiseres

Até aceito comer, beber,
ver os dias definhar
e guardo um riso amolgado
pronto para quando a tua piada magra
se desfizer, inevitavelmente, no centro da sala.
(Ninguém existe fora disto.)
Algo mais ambicioso é te atirado para as patas,
por mim claro, por quem é que haveria de ser,
até porque nada do que nos têm ensinado ao jantar serve.

 

Tens a casa ao pé do rio,
tens as velhas ruas sem pressa do costume,
muros de musgo,
pequenos portões de ferro carcomidos pela ferrugem
à entrada dos prédios,
tens o silêncio, ou melhor,
tens os compassos de espera
em que a ferrugem avançou,
enquanto, talvez, deixavas um vizinho passar.

 

Bom dia.

 

E então o rio galga em lentidão própria,
a sua língua azul ou cinzenta
reinventa a gente que partiu ontem

ou há tantos anos,

objetos desprovidos da sua cor,

corpos que afundam, quero dizer,
és só tu a pegar no sono.

Manto de conversas podres
debaixo da pele, debaixo do rio,
sem saberes improvisar, o ritmo quebra,
os gestos cansam-se,
eu próprio deixo de esperar por ti.
Mas se me despedir dos símbolos, sabes,
das impressões, das vaidades,
vou perder a força que trazia comigo
quando aqui cheguei pela primeira vez.
Somos só duas pessoas que não chegam,
são precisas as outras lá fora
a trabalhar por nós, a dar o mote.
São precisos os animais de estimação
a saberem de cada movimento nosso,
amargos por permanecerem calados.
Ou agradecidos.

 

Isto não vale nada, merda.

 

De resto, noções frágeis de sorte,
crucifixo largo de pinchbeck ao peito,
a condecorar o grande feito, 
a roupa antiga dada aos pobres
quando passaste de adolescente a mulherzinha.
Conceitos desfeitos mas doces
a passear pela boca,
o vocabulário cada vez mais reduzido,
tudo à base do ser e estar e gostar
e do e, e do mas, e do porquê.
Noções básicas de humanismo
sem políticas à mistura,
um não percebo disso com uma
falsa timidez e vergonha.
Um amigo de longa data
a dizer o problema
disto tudo é haver gente a mais.
Quanto a mim, só ponho em palavras
o mau uso das coisas.
Fazem-me escrever as cabeças impregnadas
e agora vocês escolhem
impregnadas de quê.
O quarto, talvez, sempre aliás,
mais as frases para decorar o aborrecimento alheio,
as fotografias sim,
tudo o resto, claro.

24/08/18

Desumanizar

 O pior de tudo: ela não quer explicações. Creio que muitos lá fora, mais sãos e feitos de dias cheios, imaginariam tudo isto num fim, depois de um problema qualquer brotar dos laivos quase-explosivos das relações humanas.
 O pior de tudo: isto surgiu diante de mim num princípio, numa espécie de primavera impenetrável das conversas. Então, deixei de conseguir manipular, deixei de puxar coisas do meu fundo e pô-las em cores-termos (mais) agradáveis. Deixei de ser rio a passar entre mistérios sólidos que não entendia, mudava de assunto, mentia, ria-me, ria-me muito.
 Ou seja, eu queria justificar-me para crescer e arrastá-la lentamente para a minha sombra. Eu queria adormecer longe disto-pegajoso-sem-nome, deixar lá em baixo um tipo cultivado a ir, a ir, a construir-se, a aguentar uma teia de abraços e conversas e dias doentes. E ela não queria explicações. O que fazer, então, às cordas-arames-esqueletos das coisas que disse, palavras que arrastavam palavras, caminhos que se construíam por si, tudo fruto das explicações, é que eu só sei avançar por modos desta matemática demasiado humana. E afinal não estávamos a construir nada juntos, porque eu sentia-me enganado ao não ser enganado, esperava que me atirasse com discursos vazios só com o objetivo de sermos a pares como mandam. 
 Se eu não explicar o que não tem explicação, perdemos tudo, deixamos de criar algo só para sustentar gestos e permissões. E, sabes... isso é, talvez, o pleno significado de desumano. 

Afonso Castro

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