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A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

21/10/18

Arraçado de Bartleby

Se eu fosse demasiado limpo
para ter horas,
não escrevia.
E antes de deixar de escrever,
já muita coisa deixava de ter interesse.
Porque eu não ia
para zonas antigas, suburbanas,
afiadas e fossilizadas de aborrecimento
a puxar olhares desconfiados
por eu, desde logo, estar a olhar demais,
eu a olhar e o olhar a transbordar nos outros.
É o que vos digo, se eu fosse demasiado
limpo para ter horas,
nem sequer era e, mesmo que fosse,
não me interessaria ser.

Se eu fosse demasiado - tudo:
limpo, absorto, conformado,
anulação, parado (não num bom sentido),
cinzento-vomitado, boca seca,
pequenamente morto
como depois das explosões,
desentendido... então, e agora?,
se eu fosse tudo isso, 
ou seja, se os problemas fossem magros
e raros, muito distantes,
e eu tivesse todo o tempo 
dentro de uma hora contínua,
eu não escrevia, isso garanto-vos.
Nem ia jantar fora, nem pensava 
nas viagens a fazer, nem me arrancavam
risos e palhaçadas, os livros e filmes
haveriam de saber todos ao mesmo,
as cores iam ser chatas 
e as pessoas iguais, tudo num fio da navalha
do civismo e do bom senso.

Entendes?

Agora, se me perguntares
se eu queria ser demasiado limpo
para ter horas...?
Claro.

16/09/18

Impressed

impressionismo Diário
armas entre as pernas

 

abdicar?

 

Impressionismo diário
entre as pernas, armas

 

nucleares?

 

confinado a um pequeno espaço
agora não me vejas,
vá lá, por favor

 

cultua o culto
já cultuado antes
não!... estás a fazer mal!...
tens de fingir que não veio da terra
senão perdes a força

 

O Eu, O Tu,

As Explosões cá por dentro A Casa

O silêncio
e aborrecimento

 

um dia,
multiplicações extremas com um novo corpo
(velho para outros)
e onde é que tu já vais

 

impressionada?

02/09/18

Bocados, como se ninguém se calasse

existia porque eu estava lá
e eu tinha-a ou ela própria
era
distante, a fotografia
entornei-me
para me conseguir abeirar
dela
escrever era,
sempre foi,
ter as imagens cá por dentro
doentes

 

um dia destes,
hei de me perguntar
se lamento o desperdício
e a falta, perda, etc.
que fazemos e usamos
para dormir quase em paz

 

se não cessa a culpa,
teremos sempre pena de morrer

 

a cidade: budas foleiros de prateleira
+ os sítios em nós e nós nos sítios
bem guardados pelas leis
+ santos de cabeça partida
e cada um gasta as noites como quer

 

(há palavras que já usei demais,
outras são feias,
e certas vírgulas e espaços e ausências
e falatórios e leis e paragens
não se entendem)
há (ou tens) versos porquê?

26/08/18

Encontro Desarrumado

parece que andamos
a dar à boca uns dos outros
para além do medo próprio
(incrível, irrepetível, giratório)
as punchlines de poemas chatos
as mesmas imagens em t-shirts-peles
confundidas com as dores de cabeça do costume
as regras caladas, os cafés, o tédio
todos os encontros de bússola estragada
e as grandes decisões:
ficas hoje ou fico eu
em linha de espera
para gravitar em torno de outra pessoa
(mas com as mesmas palavras)

24/08/18

Ode Ao Que Tu Quiseres

Até aceito comer, beber,
ver os dias definhar
e guardo um riso amolgado
pronto para quando a tua piada magra
se desfizer, inevitavelmente, no centro da sala.
(Ninguém existe fora disto.)
Algo mais ambicioso é te atirado para as patas,
por mim claro, por quem é que haveria de ser,
até porque nada do que nos têm ensinado ao jantar serve.

 

Tens a casa ao pé do rio,
tens as velhas ruas sem pressa do costume,
muros de musgo,
pequenos portões de ferro carcomidos pela ferrugem
à entrada dos prédios,
tens o silêncio, ou melhor,
tens os compassos de espera
em que a ferrugem avançou,
enquanto, talvez, deixavas um vizinho passar.

 

Bom dia.

 

E então o rio galga em lentidão própria,
a sua língua azul ou cinzenta
reinventa a gente que partiu ontem

ou há tantos anos,

objetos desprovidos da sua cor,

corpos que afundam, quero dizer,
és só tu a pegar no sono.

Manto de conversas podres
debaixo da pele, debaixo do rio,
sem saberes improvisar, o ritmo quebra,
os gestos cansam-se,
eu próprio deixo de esperar por ti.
Mas se me despedir dos símbolos, sabes,
das impressões, das vaidades,
vou perder a força que trazia comigo
quando aqui cheguei pela primeira vez.
Somos só duas pessoas que não chegam,
são precisas as outras lá fora
a trabalhar por nós, a dar o mote.
São precisos os animais de estimação
a saberem de cada movimento nosso,
amargos por permanecerem calados.
Ou agradecidos.

 

Isto não vale nada, merda.

 

De resto, noções frágeis de sorte,
crucifixo largo de pinchbeck ao peito,
a condecorar o grande feito, 
a roupa antiga dada aos pobres
quando passaste de adolescente a mulherzinha.
Conceitos desfeitos mas doces
a passear pela boca,
o vocabulário cada vez mais reduzido,
tudo à base do ser e estar e gostar
e do e, e do mas, e do porquê.
Noções básicas de humanismo
sem políticas à mistura,
um não percebo disso com uma
falsa timidez e vergonha.
Um amigo de longa data
a dizer o problema
disto tudo é haver gente a mais.
Quanto a mim, só ponho em palavras
o mau uso das coisas.
Fazem-me escrever as cabeças impregnadas
e agora vocês escolhem
impregnadas de quê.
O quarto, talvez, sempre aliás,
mais as frases para decorar o aborrecimento alheio,
as fotografias sim,
tudo o resto, claro.

Afonso Castro

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